Sainte Marie Gastronomia

Quem quiser que discorde de mim, mas vou morrer afirmando que alimentar o outro é provavelmente a maior forma de amor que existe.

Fui ao Sainte Marie Gastronomia pela primeira vez em fevereiro desse ano, exatamente no dia 17. Já fazia um tempo que eu tentava, mas sempre aparecia alguma coisa que me atrapalhava os planos.

Conhecido por ter o chef mais fofo do universo gastronômico, o Sainte Marie, apesar do nome francês, serve a melhor comida árabe que já experimentei. Além disso, Stephan Kawijian, dono do sorriso mais aberto que a culinária já conheceu, recebe todo mundo com a simpatia genuína de quem acredita, como eu, que amar é bem alimentar. Junto com Sabrina, sua mulher, ele divide a vida e o comando do restaurante, que tem o cardápio mais fofo que já vi, escrito em fofonhol, português e francês (as fotos abaixo são antigas e os preços não são mais esses, só para ficar claro).

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No meu primeiro dia no restaurante, fui só para lanchar e, por ter pouco tempo, comi apenas a coalhada seca e o pão sírio, oferecidos como cortesia a todos que sentam nas suas mesas, e pedi esfiha de carne. Não sou expert em comida e não tinha experimentado grandes coisas da cozinha árabe, mas fiquei encantada com a coalhada, macia, ácida na medida. A esfiha de carne tinha a massa absolutamente leve e a carne perfeitamente temperada com especiarias. Levei para casa a esfiha de botarga e fiquei impressionada. Já tinha experimentado o ingrediente em massas, mas daquela nunca daquela forma.

A volta no dia seguinte para almoçar e conhecer com calma o que Stephan tinha a oferecer foi mandatória. Estava com minha tia, boa de boca como eu, então fiquei à vontade para pedir mais de um prato. Como o couvert (a coalhada seca e o pão sírio) já era garantido, não pensei em pedir entrada. Isso não impediu Stephan de nos mimar, como ele diz, com a esfiha de basterma (ou basturma, como queira) e de coalhada recém-saídas do forno.

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Nunca tinha comido a carne curada, temperada com páprica doce e especiarias e me encantei.

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Nunca tinha passado pela minha cabeça a possibilidade de coalhada dentro de uma esfiha. Ainda bem que alguém teve essa brilhante ideia.

Como prato principal, pedimos falafel, kafta de carne e arroz marroquino.

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Quando tudo chegou, minha tia falou que não conseguiríamos comer. Para não dizer que ela errou feio, conseguimos levar para casa um pouco do arroz. E só.

O falafel estava bom, mas preciso confessar que não foi o meu preferido. O do Las do Falafel (Paris), o que mais agradou meu paladar até hoje, é difícil de ser batido.

Por outro lado, a kafta, que segundo o cardápio é a arte de afofar carne com especiarias, cebola e cebolinha, estava de arrasar coração: perfeitamente temperada, deixando claro como uma boa combinação de ingredientes deve funcionar. Junto com o arroz marroquinho, que é afofado com amêndoas, avelãs e cebolas, a refeição foi absolutamente perfeita.

Não aguentamos sobremesa, o que não impediu Stephan de nos trazer outro mimo: a mousse (eu sinto muito, mas mantenho minha recusa em escrever musse) de chocolate.

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A receita é do chef Laurent Suaudeau e é a melhor que já experimentei. O sabor e a textura são incomparáveis. Feito com chocolate meio-amargo, é maravilhoso ao meu paladar.

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As duas fotos acima são do quibe montado, que pode ter, segundo Stephan, várias camadas, a gosto do freguês. Nesse especificamente, a coalhada seca era de leite de cabra e eu podia ter morrido depois de tê-lo comido. A combinação do quibe frito, com o cru, mais a coalhada, mais as verduras cortadas no meio, mais a cebola frita, transformam uma porção em algo que só pode receber um adjetivo: perfeito. Abaixo, o último que comi, um pouco mais alto que o de cima e com coalhada seca de todo dia.

fotoÉ difícil errar quibe cru e o do Sainte Marie é bom, mas não abala minhas estruturas, tanto que só o comi uma vez.

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Mas a mousse de chocolate é algo que me abala e muito. Com ou sem calda de maracujá (que eu sempre deixo de lado nas fotos, falha minha), é algo por que meu coração bate muito forte.

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foto-3foto-4Sim, eu como muito quando vou ao Sainte Marie, não tenho como me esconder disso. E para quem não é fã da culinária árabe ou não gosta de mousse de chocolate (se essa pessoa existe, tenho muita pena dela) preciso dizer: semana passada, estava louca para comer comida de panela, mas sem saco sequer para esquentar água. Cheguei lá, falei para Sabrina o que queria e ela me sugeriu filé com cebola caramelizada. Aceitei a sugestão e acrescentei feijão, arroz e farofa com ovo (sugestão de Stephan) ao meu pedido. Sorry, mas sou dessas.

Antes de o meu pedido chegar, me veio o couvert, como sempre, e um mimo: basterma delicioso.

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Pouco tempo depois chegou o meu pedido:

foto-5foto-6Me esqueci completamente de fazer foto do feijão e do arroz, porque a vontade de comer era tanta que quando me lembrei de fotografar, já tinha comido mais da metade. Paciência, né?

Infelizmente não dá para ver pela foto, mas a carne era alta e veio ao ponto, exatamente como pedi. Absurdamente macia, bem temperada, ficou perfeita com o doce da cebola caramelizada. A farofa estava boa, mas, como sou uma nordestina farofeira, preciso dizer que já comi melhores. De qualquer forma, considerando o conjunto da refeição, isso foi apenas um detalhe que não fez diferença.

Depois que aprendi o caminho, ir ao Sainte Marie passou a fazer parte dos afazeres obrigatórios quando estou em São Paulo. Por ter voltado algumas vezes, pude experimentar outras coisas do cardápio, como os quibe cru e montado,  humus com e sem beterraba, linguiça de cordeiro (feita por Stephan), esfiha de cebola, coxinha, torta d’edy (de pistache e amêndoas), folhado de pistache, carré de cordeiro, polvo à galega.

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Preciso falar com um pouco mais de cuidado sobre o carré de cordeiro e o polvo à galega. Pedi o carré ao ponto e ele veio acompanhado de cuscuz marroquinho feito com macarrão cabelo de anjo e cebola frita.

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Já comi carré em vários lugares e feitos de forma primorosa. O do Sainte Marie veio absolutamente macio e bem temperado, salgado apenas para salientar o sabor da carne. De longe, o melhor que já experimentei. O arroz marroquino, que comi nessa ocasião pela segunda vez, estava divino.

Hoje, aceitando sugestão de Sabrina, pedi o polvo à galega.

foto-13Como escrevi no Instagram e repito aqui: se lula para ser macia precisa apanhar, tenho muita pena dessa, que deve ter levado uma surra sem fim de Stephan. Já comi polvo macio, é claro, mas preciso deixar claro que nunca um como esse. Usei a faca para cortá-lo, mas unicamente por hábito. Mastiguei cada pedaço como se fosse o último, tamanho meu deleite. As batatas estavam boas, mas presentes no prato como coadjuvantes e foram ofuscadas pelo sabor do molusco.

Demorei muito para escrever sobre o Sainte Marie e talvez isso, além da minha gula, tenha sido um pecado. Mas, exatamente por ter agido assim, tive o prazer de ir lá inúmeras vezes e constatar a consistência em relação à preparação dos pratos, algo importantíssimo quando o assunto é comida.

Poderia falar mais detalhadamente sobre cada coisinha que experimentei, mas o post ficaria ainda mais gigante, o que não seria prudente. No entanto, se não tivesse gostado tanto, certamente não teria voltado tantas vezes. Ou talvez tivesse voltado apenas para tomar um café com Stephan e Sabrina, que sempre me tratam tão bem.

São Paulo, gastronomicamente falando, é uma cidade repleta de lugares a se conhecer e aonde ir. Eu mesma tenho vários ainda na minha lista. Mas, por tudo o que tentei expor aqui, é ao Sainte Marie que meu coração pede sempre para eu voltar.

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3 respostas para Sainte Marie Gastronomia

  1. MC disse:

    Água na boca… Sua sobrinha vai nascer com cara de esfiha com coalhada e mousse de chocolate por culpa sua… rs Beijoca

  2. Theophile Gautier disse:

    Já que você não escreve mais, o que faço eu? morro? Não sei se você sabe a obra de Gautier retrata a migração do conceito de mulher mãe, sagrada, intocável, para a mulher cruel, satânica, misteriosa, enfim fatal (literalmente). Escolhi o seu nome pelo fato de que lendo um livro dele me deparei com uma passagem que me prende a você e repito esse trecho vez por outra lembrando disso. Mas nada dramático demais não.

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