Maze

Quando estava em Londres, escrevi apenas um post genérico e não dividi quase nada do que vivi lá.

Para desfazer a injustiça, preciso falar de várias coisas e começo pelo Maze, um dos restaurantes estrelados de Gordon Ramsay e minha melhor experiência gastronômica da viagem inteira.

Sei que parece piada eu ter passado dois meses na França, comendo em várias cidades, e ter tido em Londres o momento gastronômico mais maravilhoso dos meus dias.

O Maze fica em Mayfair, um dos bairros mais chiques de Londres, e faz jus à vizinhança. O restaurante fica no prédio onde está o Marriott Hotel, mas tem uma entrada independente, pela Grosvenor Square.

IMG_8349IMG_8351IMG_8348A entrada é assim sóbria, mas então você entra e dá de cara com isso:

IMG_8340IMG_8338IMG_8330IMG_8329O Maze, especializado em cozinha internacional, com inspiração francesa e asiática, foi inaugurado em 2005. O sushi bar, essa coisa linda e lilás, é o ambiente mais novo do complexo (fica no espaço do Maze) e foi inaugurado em setembro de 2012.

O Maze Grill, a parte menos formal do restaurante, com foco em carnes, começou a funcionar em 2008.

IMG_8332IMG_8333Até 180 pessoas podem ser atendidas por turno em cada um dos espaços (Maze e Maze Grill). Não bati muitas fotos do Maze Grill, porque o foco era mesmo o Maze.

Falando sobre o que interessa, o Maze oferece um menu degustação composto por quatro pratos ao custo de 25 libras. Não, eu não escrevi errado; o negócio é barato mesmo. E o comensal escolhe se quer duas entradas, um prato principal e uma sobremesa; dois pratos e duas sobremesas etc. Fica literalmente ao gosto do freguês.

Também existe o menu degustação mais refinado por 75 libras, composto por seis pratos.

Optei pelo de 25 libras e minhas opções eram essas:

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Escolhi duck foie gras, crispy chicken thigh, pork belly e frozen banana e yuzu tea cake (fiquei na dúvida entre as sobremesas e me deixaram ficar com duas).

Antes de meus pratos chegarem, fui agraciada com alguns amuse bouche e pães.

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Os pães estavam muito quentinhos e deliciosos, mas consegui me conter e não comer demais. Achei que seria uma grande bobagem desperdiçar meu apetite com eles.

Comecei a me divertir com o que me pareceu ser um baconzito branco e foi um ótimo início, porque ele é feito de porco e cebola, mas também tem algo adocicado que eu não consegui identificar. Quase sem sal, mas muito saboroso. Comeria todos os dias essa nuvem crocante.

IMG_8276A outra cumbuca tinha um chip de batata tão delicioso, que fui comendo e quase me esqueço de bater a foto. O melhor que já comi na vida, sem favores. Acredito que dê para perceber na foto o quão fino o chip é. O crocante, em função do corte, estava perfeito.

IMG_8278Depois, comi o gougère, um pão recheado com queijo. Estava bom, mas nada demais.

IMG_8272A torradinha de brioche com foie gras e cereja estava muito deliciosa.

IMG_8273Deixei por último o melhor: atum selado com maçã adocicada.

IMG_8275A mistura dos sabores e das texturas me deixou com um pensamento de “perfect bite”. Depois desse ensaio que me deixou já muito feliz, minhas escolhas começaram a chegar.

Pedi a terrine de pato com foie gras. Foi mesmo um dos amuse bouche em versão aumentada.

IMG_8282Gostei do brioche e achei que a terrine estava bem boa. Pedi a versão maior para comparar com propriedade e poder dizer que a parte do pato perde para a França. Por outro lado, o foie gras, a parte mais clara, estava com a consistência perfeita e ganhou dos franceses que comi.

Enquanto estava esperando o segundo prato, decidi beber alguma coisa e escolhi um martini de lichia e amora. Nunca bebi um drink tão perfeito na vida. NUNCA!

IMG_8277O segundo prato foi o peito de frango com pele crocante, acompanhada de nabo e alface.

IMG_8288O frango estava absolutamente macio e a pele estava perfeitamente crocante. Esse molhinho branco era uma maionese com alho deliciosa (não arrisco dizer que era um aioli por causa da cor).

Antes que eu pensasse no meu terceiro prato, me foi servido, com os cumprimentos do chef (claro que eu fiquei me achando), um peixe acompanhado de feijão branco, abobrinha e molho de tomate.

IMG_8293O molho de tomate estava levemente apimentado e o peixe perfeitamente cozido.

Enfim o último prato salgado chegou: barriga de porco, acompanhada de moluscos, lagostas, wasabi e ervilhas, com molho de saquê.

IMG_8299IMG_8298IMG_8297Sem dúvida alguma, esse foi o melhor prato da minha refeição. A barriga é uma das partes mais saborosas e mais suculentas do porco, em função da capa de gordura que a envolve. A pele crocante em cima estava deliciosa. Até pensei que a técnica utilizada no porco tivesse sido a mesma que vi no frango, mas o chef me falou que não.

Sobre os moluscos e a lagosta com o molho de saquê eu tenho apenas uma palavra: perfeição. Comi esse prato muito lentamente e até pedi para a sobremesa não ser servida logo, para eu poder sorver aquela mistura tão maravilhosa de sabores durante o máximo de tempo possível.

Depois de ter me maravilhado com o que eu já estava considerando a melhor refeição da minha vida, me perguntaram se a sobremesa podia ser servida. Eu disse que sim e recebi isso:

IMG_8310IMG_8309IMG_8307IMG_8311Fiquei igual a criança em parque de diversão! A cestinha com limões sicilianos veio gelada e linda. Quando o garçom derramou nitrogênio líquido, o espetáculo começou e eu fiquei enlouquecida de felicidade! Foi tão legal, mas tão legal, que um senhor que estava numa mesa próxima foi até à minha perguntar o que eu tinha pedido, porque ele não tinha visto nada que pudesse descrever isso no cardápio!

Junto com a brincadeira, veio um sorbet de limão com sorvete de creme, que eu não me lembrava de ter pedido. Depois descobri que esses itens também vieram com os cumprimentos do chef e quase não caibo em mim!

A primeira sobremesa oficial foi o bolo de yuzu (fala-se yuzú), o chamado limão japonês. Na verdade, o yuzu é uma lima mais cítrica e é chinesa (é tão usado na culinária japonesa que sua real origem é esquecida).

IMG_8317IMG_8318O bolo tinha textura de claras em neve e a cobertura de chocolate amargo deixou tudo delicioso. Para quem não gosta de sobremesas muito doces, essa é ideal. O sorvete de limão estava de chorar de bom e a geleia de manga e limão (lime, no menu, é o nosso limão taiti) deu a acidez perfeita à sobremesa.

Como sou louca por banana, preferi deixar a banana congelada por último.

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IMG_8314O pedaço de banana que caiu estava assado e caramelizado, como dá para ver na foto, mas frio ao mesmo tempo. Minha boca ficou confusa e extasiada com isso! A parte frozen da banana é a que está entre o biscoito e tinha uma consistência bem diferente: era congelado, mas era cremoso também.

A bolinha branca em cima é sorvete de leite. Não me lembro de ter experimentado sorvete de leite antes desse dia e fiquei encantada. Como algo de sabor tão simples pode ser tão saboroso. Fechei minha refeição magnânima da melhor forma possível.

No final das contas, acabei ficando três horas no Maze e meu menu acabou tendo sete pratos em vez dos quatro previstos. Também pedi um martini e morango e outro de maracujá com baunilha; mas nenhum deles cheirou o chulé do de lichia e amora. Até me arrependi de ter resolvido experimentar outros sabores.

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Quando terminei de comer, Sid Clark, o gerente geral dos restaurantes de Gordon Ramsay, foi à minha mesa e foi de uma gentileza sem tamanho.

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Sid é casado com uma brasileira e foi muito gentil comigo, por eu ser brasileira, estar sozinha e ter trocado alguns emails com o pessoal responsável pela reserva (quis autorização formal para bater as fotos dos pratos e dos ambientes dos restaurantes).

Na verdade, quando resolvi ir a Maze, minha ideia era ficar na Chef’s table, a mesa que fica dentro da cozinha, onde o comensal vê tudo o que acontece lá dentro enquanto come. Infelizmente um casal foi mais rápido que eu. Para compensar, ganhei um tour pela cozinha e tive a oportunidade de ver onde os 30 (sim, trinta) chefs trabalham.IMG_8324IMG_8323IMG_8322IMG_8321Fiquei impressionada com a limpeza do lugar. Nem parecia que há poucos minutos um sem número de pratos tinha saído da cozinha. Quando comentei isso com Sid, ele disse que um dos ensinamentos do chef Ramsay é que os chefs devem limpar toda a sujeira e bagunça que fazem. Ou seja, o que a gente vê ele exigindo na televisão é o cobrado na vida real de suas cozinhas. Fiquei ainda mais fã.IMG_8320Sid me mostrou uma sala reservada para até dez pessoas, também com vista da cozinha, que pode ser usada para um grupo menor. Infelizmente, para apenas uma pessoa não é possível.

Antes de ir embora, fui apresentada a Tristin Farmer, o head chef do Maze, que me surpreendeu com um menu fantástico e várias gentilezas ao longo de uma experiência gastronômica inesquecível.IMG_8327

Aliás, preciso escrever aqui algo que já disse: o atendimento dos restaurantes ingleses é infinitamente superior do oferecido pelos franceses. Na França na maioria dos lugares os clientes são mal tratados. A exceção são os restaurantes estrelados, mas ainda com um porém: o serviço melhora porque a equipe sabe o que se espera de um estabelecimento estrelado; não é algo natural. Na Inglaterra é o exato oposto: o serviço em regra é excelente, não importando que o lugar seja famoso/reconhecido ou não.

No Maze, fui maravilhosamente bem cuidada e saí de lá incrivelmente feliz. Demorei para escrever sobre tudo isso, para poder falar sobre a comida sem me deslumbrar com o tratamento que recebi. É óbvio que não consegui, mas a razão é disso muito simples: é impossível não levar em conta a atenção do Maze quando se fala sobre ele.

Aproveito e deixo aqui meu agradecimento a Sid Clark, Tristin Farmer e todo o staff do Maze, responsáveis por eu ter tido um momento inesquecível e que ainda me emociona.

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2 respostas para Maze

  1. theophile gautier disse:

    saudade de ler vc.

  2. A large i would like to show some gratitude to your own article. Much thank you again. Great.

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