A (minha) vida como ela é

Ouvi de João algo que me deixou muito feliz e muito triste. No meio de uma conversa sobre o que escrevi no post de ontem, ele saiu com um “se ela fosse mulher de depender de homem, a gente nem a teria conhecido”. Não foi exatamente isso, mas foi quase. Para que não fique fora de contexto, a frase saiu depois de Paulo ter dito que certamente eu voltaria para a França por ter deixado alguém por lá.

Não há ninguém. Nem lá, nem cá. E eu vou de novo por razões minhas, íntimas. Primeiro, porque eu quero. Segundo, porque eu posso. Terceiro, porque não tenho por que ficar.

Mas pensando sobre o que João disse, cheguei à conclusão de que me transformei em alguém muito diferente dos meus sonhos de criança.

Meu maior sonho era, depois de ser jornalista, ser dona de casa. Não a dona de casa que não trabalha; não é isso. Queria ser a dona de casa que tem outras preocupações além das próprias, sabe como? Que tem de quem cuidar, cuja atenção é apreciada e cujos defeitos são aceitos e compreendidos.

Era algo tão absurdo que eu só comecei a ter coragem de externar agora – até porque fui educada para ser casada com emprego; exatamente como sou.

Uma vez, há alguns bons anos, recebi um email que começava mais ou menos assim: “quem foi a mentecapta que inventou que as mulheres têm que fazer a mesma coisa que os homens?”. O texto criticava a vida das mulheres modernas e num ponto dizia que era muito melhor quando tudo o que a gente tinha que fazer era bordar e conversar.

Me lembro de ter achado aquilo o máximo, porque era exatamente o que pensava. Mas nas vezes em que falei algo parecido, parecia que a mentecapta era eu. Achei melhor deixar para lá.

Então, acabei me impondo a vida que levo, porque basicamente não encontrei opção melhor. E tenho consciência de que minha vida é boa. Muito boa, na verdade. Ela só não combina com o que desejo.

Tudo meu gira em torno de mim, o que pode ser bom, mas também pode ser árduo. Ser independente é das coisas mais cansativas da minha vida. Não poder contar com ninguém caso eu precise é das coisas mais tristes. A minha sorte é que essa precisão acontece quase nunca (preciso deixar claro que pude contar com anjos em algumas situações e sou/serei muito grata sempre).

Acho que por isso pensei tanto na conversa de ontem, que deve ter durado no máximo cinco minutos. De qualquer forma, sei que veio de João um elogio e eu o agradeci por me ver assim. Até porque João tem razão: se eu fosse diferente, ele não faria parte de mim. Nem ele nem tantas outras pessoas.

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