Paris – dia 3 – Dans le noir

Na quinta à noite nossa reserva foi feita no Dans le noir, um restaurante aonde se vai não apenas para comer, mas para ter uma experiência sensorial, porque o jantar é servido no mais absoluto breu por garçons cegos.

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Sem dúvida alguma, foi o lugar que me proporcionou a mais diferente e impactante experiência gastronômica que já tive na vida. Não estou falando da comida, que fique claro, mas de como se come lá.

Assim que se chega, um recepcionista avisa que existe um cofre no andar de baixo à disposição para a guarda dos pertences dos comensais, frisando que devem ser guardados os que sejam capazes de emitir algum tipo de luz, como telefones e câmeras. No mesmo ambiente do cofre, existem algumas mesas, onde as pessoas com reserva esperam sua vez. Também nos foi dito para ir ao banheiro antes de entrar no salão, porque, uma vez lá dentro, não se pode sair.

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Depois de guardar nossas coisas, fomos escolher que tipo de jantar queríamos. Decidimos pela fórmula com entrada, prato principal e sobremesa, além de dois vinhos surpresa no meu caso (Tatiana preferiu apenas um).

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Em seguida, é informado o garçom responsável pela respectiva mesa. Para a nossa, foi designada Gadha (pronuncia Radá).

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Gadha, assim como os outros dois garçons que atendem no Dans le noir, busca as pessoas de cada mesa sob sua responsabilidade. Ela chegou, segurou na mão de Tatiana e me pediu para colocar as minhas nos ombros de Tati, tipo trenzinho, para então entrarmos no salão.

O lugar é de um escuro tão escuro que assusta. Fiz a reserva sabendo que comeria num ambiente sem luz alguma, mas não tinha ideia do breu que seria. É algo verdadeiramente impressionante.

Enquanto Tatiana era guiada a seu lugar na mesa, Gadha me deixou encostada numa parede acolchoada esperando minha vez. Depois, ela me pegou pela mão e me me mostrou onde sentar. Em seguida, com as mãos, me mostrou que existiam dois copos na mesa, além de talheres e guardanapo, e me avisou que Tatiana estava na minha frente. Como era impossível ver alguma coisa, a gente precisou tocar a mesa e os demais objetos para ter noção de onde estava o quê.

Depois de tatear tudo, começou a cair a ficha de como tudo funcionaria. Tudo se potencializa, os barulhos ficam mais altos e eu me percebi menos no automático e mais sensível para experimentar os pratos. Fiquei com os olhos o tempo inteiro escancarados, como se isso fosse me ajudar de alguma forma. Acho que ficar assim foi apenas uma defesa mesmo, porque é um pouco atemorizante a ideia de não ver nada.

Enfim, tudo o que foi servido nos foi entregue em mãos, para que colocássemos na mesa e pudéssemos saber exatamente onde estava. Pedimos água e vinho, então nosso espaço ficou bem ocupado. Mesmo assim, não derrubamos nada (ouvimos coisas caindo algumas vezes) e conseguimos comer com o máximo de graça possível, considerada a circunstância.

A parte gastronômica começou com a entrada: foram servidas três coisas diferentes, que não conseguimos identificar. Tinha uma espécie de sushi, alguma outra coisa com uma carne defumada em cima (o meu preferido, mas a carne defumada era pato) e a terceira, de que não tive a menor noção do que era (descobri depois que era abobrinha recheada). Comi tudo com as mãos, porque não tive segurança para usar os talheres.

No prato principal, consegui identificar vieira, pêra temperada e uma carne. Na verdade, a carne mais uma vez era pato (magret de canard). A vieira estava fantástica e tê-la reconhecido me deixou muito emocionada. Explico: experimentei e melhor da minha vida em Paris, no restaurante Jacques Cagna; tentei fazer várias vezes em casa e nunca ficou sequer parecido. Quando falei a Gadha que estava comendo coquille saint jacques e ela confirmou, foi como ter chegado ao céu.

No segundo prato, já foi possível cortar o pato, sentir a consistência da comida com o garfo e comer direito com os talheres. Achei incrível a evolução que ocorre na nossa percepção das coisas e no senso de adaptação.

Preciso abrir um parêntese e dizer que sou péssima em reconhecer sabores (já comi frango achando que era peixe feliz da vida) e tenho certeza de que só reconheci a vieira porque minhas papilas gustativas estavam mais aguçadas pela escuridão. Pelo cheiro, antes de colocar na boca, achei que podia ser algum peixe. Como a consistência do molusco é bem característica, descartei logo a ideia de pescado e me concentrei em tentar descobrir o que era.

Na sobremesa, que consegui comer com a colher que veio junto, o que mais me chamou atenção foi alguma coisa maravilhosa de chocolate, que depois descobri ser brownie (não ia identificar nunca, porque a consistência era muito diferente da com que estou acostumada). Também reconheci alguma coisa de abacaxi.

Sobre o jantar, devo dizer que o fato de ter sido desprovida do primeiro sentido que utilizo para comer, a visão (sim, porque nós que enxergamos comemos primeiro com os olhos mesmo), me deixou mais atenta, a ponto de ter utilizado minha lembrança gustativa para identificar um dos pratos que mais gosto, que é a vieira.

Depois que terminamos de comer, Gadha nos levou para fora do salão e eu não resisti: dei um forte abraço nela e agradeci muito a oportunidade de ter vivido aquilo sendo literalmente guiada por suas mãos. Foi uma noite bastante especial. E, como disse Tatiana, muito apropriadamente, deficientes somos nós, que temos a visão perfeita e somos tão limitados.

Para satisfazer a curiosidade, antes de ir embora, é possível ver o cardápio com os pratos servidos. Voilà:

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Saímos do restaurante extasiadas. Ainda, não é apenas um jantar, mas, como disse no início, uma experiência impactante, que deve ser usufruída a quem tiver oportunidade. É algo absoluta e realmente fantástico. Mandatório até, para quem aprecia situações diferentes.

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4 respostas para Paris – dia 3 – Dans le noir

  1. Daniel Ponte disse:

    Que show! Mas esse negócio de comer sem saber o que se está comendo é meio complicado pra pessoas alérgicas, né? Hehehe, muito bacana!

  2. Estou completamente convencida de que devo passar por essa experiência também!

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