Meu argumento

Estou com muito sono para ter assunto, sabe? Então, para não sumir por completo, decidi colocar aqui o argumento que escrevi no intensivo de roteiro que fiz na Academia Internacional de Cinema. É sobre uma galinha que quer morrer e depois não quer mais. No final, estão os comentários do professor Aaron Fernandez.

ARGUMENTO – O DESTINO DA GALINHA

Crizelda, a galinha mais raquítica, porém mais vaidosa do galinheiro, está sentada, triste, depois de ter visto sua colega Carmencilda ser pega pelo pescoço e ter seus pés

amarrados, com barbante vermelho, por Marlinda, a dona do terreiro onde fica o galinheiro.

Crizelda, que está sempre arrumada esperando seu dia, começa a achar que toda a preparação não tem sentido, porque nem a medalha dourada que está no seu pé esquerdo é suficiente para chamar a atenção de Marlinda. Ela olha para seu pé com muita tristeza.

Carmencilda vai ser utilizada no trabalho de dona Jurema e grita desesperadamente. Mesmo amarrada pelos pés, tenta fugir, bate suas asas com toda a força que lhe é possível, mas seu destino já foi traçado, e Marlinda corta seu pescoço com a habilidade de quem há anos vive para isso.

Ariosvaldo, o galo, zoa da cara de Crizelda, por não entender a fissura da ave, que quer morrer sacrificada em benefício do amor dos outros. Na verdade, o que ele não sabe é que ela acredita que Oxum vai levá-la ao paraíso das galinhas em razão do que ela acredita ser um nobre ato.

Acontece que, de tanto esperar ser escolhida, Crizelda cansa e decide fugir do galinheiro. Durante à noite traça na sua cabeça o plano perfeito e decide executá-lo no dia seguinte, para quando um outro trabalho está marcado.

Assim que amanhece, a nova cliente de Marlinda chega e com ela a possibilidade de Crizelda colocar seu plano em prática.

Muito concentrada e atenta, assim que Marlinda abre a porta do galinheiro, começa o cisca-cisca da ave, que consegue fazer com que todas as outras cisquem também.

É nesse momento em que Crizelda bate as asas bem na frente do rosto de Marlinda, que fica desorientada e fecha os olhos, dando a Crizelda a oportunidade para a fuga.

Crizelda consegue fugir com mais facilidade do que pode imaginar, porque, sendo magra, corre mais rápido do que Marlinda, que ainda está atordoada.

Como não sabe o que fazer e não tem exatamente para onde ir, Crizelda sai vagando pelas ruas, procurando comida, até se deparar com uma laranjeira frondosa e cheia de frutos que a deixa hipnotizada.

Crizelda se aproxima da árvore vagarosamente até chegar bem perto dela, momento em que cai uma laranja do seu lado. Ela consegue tirar a casca da fruta e vê o fruto amarelo dourado, da cor de Oxum, e ela interpreta a situação como um sinal de que o seu paraíso é ali.

Crizelda se apaixona pela árvore e, como a laranjeira a alimenta com seus frutos, ela entende que o sentimento é recíproco e decide ficar lá, ciscando e cacarejando por seu amor, enquanto recebe dele as mais saborosas e douradas laranjas.

Antes magra, Crizelda, depois de comer tantas frutas, agora é formosa, carnuda e tem  uma aparência deliciosa. Mas isso não faz mais diferença, porque ela conhece o amor e o único sacrifício que está disposta a fazer é viver em função dele. Nem de Oxum ela se lembra mais.

No entanto, num ensolarado e lindo dia, Marlinda está voltando das compras e vê aquela galinha linda e gorda ciscando nos pés de uma laranjeira enorme e para para observar a cena.

Maravilhada, Marlinda se aproxima e vê, no pé da ave, uma medalha e se dá conta de que Crizelda, sua galinha fujona, está bem a seu alcance.

Crizelda, muito concentrada em comer laranja e ciscar ao redor da laranjeira, não se dá conta da chegada de sua ex-dona e continua a comer e ciscar como se não houvesse amanhã.

Marlinda percebe a distração de Crizelda e como uma cobra que dá o bote, pega a galinha pelo pescoço. Crizelda, sem entender nada e sem a agilidade de antes, acaba desmaiando com o aperto em seu pescoço.

Quando acorda, Crizelda está de volta ao galinheiro, sendo exibida à mais nova cliente de Marlinda, sob os olhos tristes de Ariosvaldo.

Finalmente seu desejo vai se realizar: Crizelda, que tanto desejou ser sacrificada, está prestes a sê-lo.

No entanto, quando Marlinda começa o trabalho, uma chuva torrencial começa a cair e tudo tem que ser adiado.

Crizelda é colocada no galinheiro com a promessa de que tudo recomeçará no dia seguinte.

Marlinda, no amanhecer do dia, vai olhar Crizelda, para se certificar de que está tudo bem, e encontra a galinha morta.

Crizelda morreu de medo.

 

Comentário do professor:

Bom argumento, bem redigido e claro. A estrutura tem um bom desenvolvimento. Talvez falte mostrar más claramente que é um terreiro no qual as galinhas são sacrificadas. Faltaria mostrar também as tentativas de Crizelda para ser sacrificada. O fato dela ficar cansada de esperar, não me parece ser um motivo totalmente lógico para justificar a mudança de atitude da galinha e o fato de querer fugir. Talvez o fato dela ser magra faz com que ela seja vendida ou doada para alguém mais, ela quer voltar para o terreiro, foge da nova casa e no caminho encontra a laranjeira… Não se entende também porque ela não quer mais ser sacrificada; gosto da ideia de mudança de atitude dela, mas alguma revelação tem que ser feita para ela não querer mais ser sacrificada. Bom trabalho!

 

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Uma resposta para Meu argumento

  1. hugoenok disse:

    Amanda!!! Adorei o roteirinho da Crizelda. rsrsrsrsrs
    Lembrei do “Fuga das Galinhas”.
    Mesmo sendo meio trágico ele é muito fofo.

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