Um livro para gente metida a besta

Terminei de ler Big Jato, de Xico Sá, a quem sempre quero me referir como Chico César, e fiquei pensando como escrevo, considerando que hoje faço isso como se estivesse falando.

Houve um tempo em que na minha cabeça escrever bem era igual a escrever difícil. Enfeitava o pouco achando que estava dizendo muito, mas tudo não passava de encheção de linguiça na sua forma mais estridente.

Ainda bem que isso passou, porque eu também não aguentava mais a minha procura quase insandecida por adjetivos novos para substituir os antigos.

Preciso reconhecer que fazia isso até usando como desculpa um dos ensinamentos de Ana Régis, que dizia que se devia aprender ao menos uma palavra nova por semana.

O problema não estava em aprender o gênero: o ruim era esquecer espécies importantes, como verbos e substantivos (vou nem falar de advérbios, pronomes, nem nada, pra isso não se transformar numa aula chata de morfologia).

Lendo Big Jato me dei conta de um negócio bacana que também é muito importante: hoje eu retrato quem sou no que escrevo, sem firula, expondo meu vocabulário nordestino com bem mais orgulho do que jamais tinha me dado conta.

Fabrício, meu primo, fala que eu tenho um dialeto próprio e por vezes enche meu saco por isso, o que já me deixou deverasmente irritada um zilhão de vezes. Talvez ele tenha razão, talvez nordestinês seja um dialeto brasileiro.
Só quero deixar claro meu orgulho da minha raiz nordestina, potiguar, natalense; e do sotaque e das palavras que nascem dela.

Fiquei extasiada, por ter chegado à conclusão de que muita gente vai ler Xico Sá, porque ele agora é cool, mas poucas pessoas vão entender as piadas e as referências à nossa cultura. Acho, sim, que o livro é uma espécie de piada interna.

Quero ver que paulista (com as raras exceções existentes para confirmar a regra), que em sua maioria mal sabe fazer um O com uma quenga, mas ama mangar de nordestino, vai conhecer a neguinha do Pajeú (Xico só fala do lugar) e Cego Aderaldo, ou saber o que é capote, fiofó, munganga, caninga, gastura e tantos outros arroubos nossos. Aliás, só meus conterrâneos vão realmente entender o que escrevi nesse parágrafo, para minha felicidade.

Além disso, vamos combinar, nordestino, principalmente cearense (Xico Sá é do Crato), tem um humor de lascar qualquer cabeça chata, além de outras tantas qualidades. Para quem não sabe, minha mãe é itapipoquense, conterrânea de Tiririca, aquele palhaço que está achando que política não combina com ele (amém, aleluia, salve).

Terminando, para não ficar mais entediante, quero só dizer que somos cabras da peste, sim, e não é todo mundo que dá conta de se meter com esse nosso tipo.

Deixo a parte do livro que quase me fez fazer xixi nas calças de tanto rir, mesmo sabendo que pouca gente vai entender a piada.

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Uma resposta para Um livro para gente metida a besta

  1. pfabricio disse:

    Só faltou a tradução dos termos em natalês, mas neste texto não atrapalha o entendimento.

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