Pode mentir, se for para me fazer feliz

Acho o máximo quando uma pessoa se importa com outra o suficiente para mentir. Acho de uma delicadeza sem tamanho. Explico-me com um exemplo. Há algumas semanas, não lembro exatamente quando, recebi um telefonema que me deixou bem felizinha; até mencionei o fato por aqui. Na ocasião, um criaturo me ligou, disse ter sonhado comigo na noite anterior e resolvido aparecer. Óbvio que ele não sonhou comigo coisa nenhuma e afirmo isso com a certeza de quem descobriu o motivo da lembrança. Mas o fato de ele ter tido o trabalho de criar a história, bem bonitinha, por sinal, alegou meu dia sobremaneira. Nem era necessário, porque só a ligação já foi muito legal, compreende? Elaborar todo o resto foi o toque que me fez sorrir igual retardada por um bom tempo.

É a mesma coisa quando a pessoa acorda se sentindo horrorosa, o que acontece comigo com mais frequencia do que gostaria, e alguma alma abençoada vê tudo isso, percebe o horror, mas diz que estou ótima. É desse tipo de atenção que estou falando.

Não estou falando da situação em que alguém diz que meu cabelo está diferente, quando sei que diferente é sinônimo de horrível. Essa ironia, que pode não ser fina, é péssima e muito facilmente perceptível, porque, como a intenção é ruim, a expressão de quem se porta assim também fica ruim. É o tipo de coisa que não se disfarça e só cria antipatia. Definitivamente, não é isso que me interessa.

Estou querendo dizer que acho o mentir, nos casos em que o intuito é elevar a autoestima (olhei no Volp, amado do meu coração, para não errar) do outro, o mais sublime dos comportamentos.

Na verdade, nem gosto de chamar isso de mentira, sabe? É uma atitude muito nobre para ser denominada por uma palavra cujo significado normalmente faz remissão a algo negativo.

Até meus vinte e poucos anos, achava que mentir, não importava com que objetivo, era das coisas mais execráveis da convivência humana. Não fazia mesmo diferença, porque na minha cabeça mentira era mentira, era necessariamente uma coisa de gente do mal, e todo mundo devia ser honesto, não importando o quanto a dita honestidade pudesse magoar o outro. Pensamento da minha juventude idiota, quando eu sabia quase nada da vida. Hoje percebo que existia em mim um certo sadismo em ser honesta demais, entende? Não, não me orgulho disso, mas não posso fugir da forma como me comportava.

Ainda bem que fui abençoada por pessoas que me fizeram perceber, mentindo para mim, claro, que esse comportamento pode ser muito útil em situações críticas.

Meu raciocínio está meio confuso ultimamente, então não sei se consigo me fazer entender da forma exata como pretendo. Apesar disso, insisto: se for para me fazer feliz, pode mentir para mim. Creio mesmo que, com esse objetivo, um comportamento que seria reprovável passa a ser mandatório.

Preciso abrir um parêntese: sei que escrevi a palavra mentira à exaustão e isso poluiu meu texto. Mas é que engodo, ilusão, engano, dentre outros nomes, não são sinônimos perfeitos para o que eu queria dizer. Para o verbo mentir, o melhor que encontrei foi aldabrar (ou aldavrar) mas, além de a palavra ser, na minha opinião, muito feia, não é muito conhecida, ao menos por mim (só descobri, porque fui procurar no Aulete algum substituto para evitar a excessiva repetição).

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