Sexta-feira 16

Esta última sexta-feira foi para mim bem atípica. O dia começou eu tendo que ficar linda e morena (a expressão linda e loira é de fato muito mais legal, mas enfim), para bater umas fotos. Consegui fazer tudo o que precisava, ainda que de forma meio apressada, para cumprir o compromisso bem direitinho. Supimpa.

Final da tarde, antes de ir para a universidade, resolvi passar no hospital, e lá fui agraciada com mais uma injeção de corticoide, com a promessa de que minha tosse pararia em uma hora e meia, o que, é óbvio, não aconteceu.

Saindo do hospital, comecei a olhar o feed de notícias do facebook e o que estava aparecendo na minha micro tela era chocante: veículos sendo incendiados em Natal. Logo depois, um prédio no Tirol em chamas. Primeiro pensamento foi: o que raio está acontecendo nesse pedaço de terra????

Quando eu soube que o edifício onde o incêndio estava acontecendo era o mesmo em que alguns amigos moram, a agonia tomou conta. Passei em frente e vi as labaredas. Uma coisa maluca. Liguei para X, um dos amigos, e estava tudo bem. Amém! Aleluia! Salve!

Por causa da história dos veículos incendiados, o conselho da polícia era que as pessoas ficassem em casa, porque até um carro de passeio tinha sido atingido. Como estava tudo bem com X e não houve feridos graves (no final, foi informado que apenas um rapaz do Corpo de Bombeiros ficou com a mão queimada), fui direto para lá, depois de mandar meus pais ficarem quietos em casa. Eu queria ver de perto o que estava acontecendo, jornalisticamente falando.

Eu nunca vi nada parecido. O fogo saía pela janela, pedaços do prédio caíam, uma coisa louca.

Como eu consegui passar pelo cordão de isolamento do Corpo de Bombeiros, vi bem de perto tudo o que estava acontecendo. O sistema anti-incêndio do prédio não funcionou, carros-pipa foram chamados, tiveram que usar um hidrante da rua para conseguir a água usada no controle do fogo. Por causa da altura (o apartamento fica no 11º andar) a água demorou para percorrer o caminho da mangueira (talvez nem tenha demorado tanto assim, mas a impressão que ficou foi essa). E eu lá, no meio desse caos organizado. Porque, é preciso reconhecer, apesar de Natal não ser uma cidade em que coisas assim comumente acontecem, temos aqui um Corpo de Bombeiros que está preparado para lidar com elas.

No meio disso tudo, conheci Ericksson Oliveira, o proprietário do apartamento destruído pelo fogo. Não sei se ele estava em choque ou se ele é como eu vi (se tiver que apostar, escolho a segunda opção). Na minha frente estava um homem sereno, tranquilo e resiliente com o que estava acontecendo. A frase que ele mais falou foi “ainda bem que isso aconteceu no meu apartamento. Antes no meu apartamento, do que no de qualquer outra pessoa”. Não, eu não escrevi errado, nem estou fazendo apologia ou querendo transformá-lo num santo. E sei que ele dizia isso por uma razão: ele e Betânia, sua esposa, foram os engenheiros responsáveis pela obra. Ironia pouca é bobagem.

Independente desse detalhe, porque para mim não passa disso, quem você conhece que falaria o que ele falou na situação que ele estava vivendo? Eu não consigo me lembrar de ninguém.

O apartamento dele e todas as coisas que estavam dentro morreram. Isso é literal. Ericksson e sua esposa não estavam. E ele era grato o tempo inteiro por isso.

Numa situação assim, inevitável pensar em alguns dos grandes clichês da nossa vida: a única certeza que se tem é da morte, desse mundo nada se leva e devem-se valorizar bens outros que não sejam os materiais. Mais uma vez eu pergunto: quem de fato vive de acordo com isso? Porque há outros clichês que podem até estar batidos, mas sabe-se que são fatuais: caixão não tem gaveta e vão-se os anéis, mas ficam os dedos. Clichês corroborando outros.

Não quero dizer que bem material não é importante, porque eu bem reconheço o valor dos meus: meu apartamento e tudo que está dentro dele, principalmente minha cama confortável, meu celular, meu carro, dentre outros tantos. Mas ver o que eu vi sexta coloca as coisas numa outra perspectiva, inevitavelmente.

No fim, as lições que eu tirei disso são: as coisas só têm o valor que a gente dá; a gente perde muito tempo com coisa besta; a vida pode mudar completa e absolutamente num segundo. E ainda fica uma lição prática: seguro, se você não tem, faça (vou tentar não dizer mais que pago os meus com raiva), porque ele é que garante alguma reestruturação física das coisas. Nada vai ser reposto ou recuperado, numa situação como essa. Já foi. Passado. Zip. No entanto, não serei hipócrita: as coisas, os objetos, os bens – chame do que quiser- têm sua importância.

A parte incendiária do meu dia ficou entre parênteses. Comecei muito bem minha sexta-feira e tive a divina oportunidade de terminá-la assim também. E, quando estava na minha cama, já pronta para dormir, só consegui pensar numa coisa: quero ser comoEricksson quando eu crescer.

Crédito do vídeo: Alexandre Rabello (Xandão, você é 10000000000…)

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Sexta-feira 16

  1. LuWa disse:

    Amandinha, estou adorando o seu blog. Parabéns! Você escreve de uma forma muito agradável e puxa a atenção mesmo. Eu, que não costumo ler textos longos em blog, li todos os seus! 🙂
    Pena não termos nos encontrado dessa vez aqui em SP, mas pelo visto a sua segunda-feira fashion foi animada! Nos vemos na próxima! Beijão, Lu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s